sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Como se o Vigário não soubesse

O monsenhor polonês Slawomir Oder acaba de lançar, na Itália, a biografia do Papa João Paulo II (Por que um Santo?), na qual defende a canonização de Karol Wojtyla. Segundo o conceituado autor, o papa possuía um cinto com o qual se açoitava quando estava só e costumava dormir no chão, com o intuito de penitencia-se.


Esse tipo de penitência é chamado ascese, corrente oriunda de uma vertente mística do catolicismo, que admite ser o sofrimento uma prova de aproximação do fiel ao martírio de Cristo, como uma forma radical de expurgar os pecados, especialmente aqueles inconfessáveis.


Ora, não tenho a intenção de criticar tão nobre intento, uma vez que o monsenhor Oder pretende honrar postumamente um homem que, em vida, teve o reconhecimento do mundo inteiro de ter sido uma pessoa bondosa e uma liderança forte e carismática, principalmente no meio católico. Também não pretendo fazer loas a quem certamente delas não precisa.


O que gostaria de externar é que a defesa de canonização por tal via de argumentação não deve fazer jus ao Papa João Paulo II, reconhecido e reverenciado pelo catolicismo (assim como os outros papas) como o “Vigário de Cristo” na terra. Porque Karol Wojtyla era um homem que, do alto de sua posição sacerdotal e do sobejo conhecimento teológico adquirido em longos anos de intenso estudo das Escrituras, tinha conhecimento pleno a respeito da obra expiatória de Cristo no Calvário.


Assim, o papa tanto conhecia a Bíblia que, em sua Encíclica “Fides et Ratio”, de 14/09/1998, endereçada aos Bispos da Igreja Católica sobre as relações entre Fé e Razão, escreveu:

“Na base de toda a reflexão feita pela Igreja, está a consciência de ser depositária duma mensagem, que tem a sua origem no próprio Deus (cf. 2 Cor4, 1-2). O conhecimento que ela propõe ao homem, não provém de uma reflexão sua, nem sequer da mais alta, mas de ter acolhido na fé a palavra de Deus (cf. 1 Tes 2, 13).”


Em sua primeira Encíclica, de 04/03/1979, cujo nome era “Redemptor Hominis”, que trata do mistério da Redenção em Cristo, ele escreve enfaticamente:

“A Igreja, que não cessa de contemplar o conjunto do mistério de Cristo, sabe com toda a certeza da fé, que a Redenção que se verificou por meio da Cruz, restituiu definitivamente ao homem a dignidade e o sentido da sua existência no mundo, sentido que ele havia perdido em considerável medida por causa do pecado. E por isso a Redenção realizou-se no mistério pascal, que, através da cruz e da morte, conduz à ressurreição.”


Desse modo, como poderia o próprio papa negar o que escrevera? Ele que afirmou crer na Palavra de Deus e na Redenção efetuada por Cristo, voltar-se-ía aos sacrifícios punitivos pelos seus próprios pecados? Não tem cabimento.


O papa, com certeza, sabia que Jesus havia efetuado um sacrifício único e suficiente, como está escrito: “Com efeito, nos convinha um sumo sacerdote como este, santo, inculpável, sem mácula, separado dos pecadores e feito mais alto do que os céus, que não tem necessidade, como os sumos sacerdotes, de oferecer todos os dias sacrifícios, primeiro, por seus próprios pecados, depois, pelos do povo; porque fez isto uma vez por todas, quando a si mesmo se ofereceu” (Hebreus 7.26,27).


O papa sabia que não caberia mais nenhuma penitência, nem sacrifícios de animais, e que a redenção era eterna, como está escrito: “Não por meio de sangue de bodes e de bezerros, mas pelo seu próprio sangue, entrou no Santo dos Santos, uma vez por todas, tendo obtido eterna redenção” (Hebreus 9.12).


O papa sabia que Deus tinha nos santificado “mediante a oferta do corpo de Jesus Cristo, uma vez por todas” (Hebreus 10.8-10). Sabia também que Jesus é o único Salvador, pois “não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos” (Atos 4.12).


Tudo isso, e muito mais, Karol Wojtyla defende nas catorze Encíclicas que escreveu e publicou, cujos textos são conhecidos como documentos teológicos oficiais da Igreja Católica.

Não quero ofender a ninguém, mas prefiro acreditar na ortodoxia do papa, na coerência do que escreveu, e que, contrariamente ao dito na sua biografia, ele não se mutilava; antes, cria Naquele que foi “Mutilado por todos nós”.


E que me perdoe o monsenhor Slawomir Oder, embora a sua intenção seja nobre. Mas afirmar que Karol Wojtyla se mutilava, vai de encontro a um princípio basilar da teologia cristã, defendida pelo próprio papa: que “a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens (...) a fim de remir-nos de toda iniqüidade e purificar, para si mesmo, um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras” (Tito 2.11-14).


Desta vez darei razão ao papa, se é que não se mutilava. Como ele não está aqui para defender-se, prefiro acreditar, a seu respeito, a partir do que ele próprio escreveu ao longo da vida.


Samuel Câmara - Pastor da Assembléia de Deus Belém / PA - Igreja Mãe
Confira os artigos do Pastor Samuel Câmara, todas as semanas no jornal "O Liberal" -http://www.oliberal.com.br/

2 comentários:

Legalino disse...

Cabra macho esse Samuel Câmara!
E que coerência! Karol deve estar se remexendo na tumba. E monsenhor Oder vai ter de reeditar sua obra.
Eita Cabra Macho, esse Samuel Câmara!
Legalino

Ismar Sahdo disse...

É preciso considerar também que: É possível SABER e não CRER e nem VIVER aquilo que se sabe. Não precisa ir muito longe. Nós cristãos evangélicos vivemos também uma espécie de ascetismo gnóstico do tipo "NÃO TOQUES, NÃO PROVES, NÃO MANUSEIES" (conforme Colossenses), conquanto SAIBAMOS que nada disso tem força contra os desejos da carne. Nós somos, no geral, com poucas excessões, o povo que começou no Espírito e agora quer se aperfeiçoar pelo esforço próprio (conforme Gálatas). Isso a gente vê nas pregações e, sobretudo, na prática dos irmãos que se proibem de tudo. Nós somos o povo mais proibido que existe. Daí a nossa luta, através de programas de TV e pregações nos púlpitos, para mostrar que o jovem crente pode ser feliz e participar de muitas coisas desse mundo que não são mundanas. Já fomos, no passado, proibidos de jogar futebol, de entrar nos cinemas, de ir à praia,... infelizmente essa é a nossa história. E em muitos lugares ainda é assim. Vivemos, na maiorias das vezes, e isso de forma inconsciente, barganhando com Deus a nossa salvação/santificação. Quem pode negar isto? Só quem não quer ser honesto para com a verdade! Portanto, esta mensagem do Pr. Samuel serve antes para nós mesmos, isto é, somente no dia em que crermos de verdade, no coração, que o preço ESTÁ PAGO, que Jesus levou sobre si os nossos pecados, que o castigo que nos traz a PAZ, estava sobre Ele,... é que nunca mais faremos nada com vistas a barganhar alguma coisa com Deus, mas todo bem que fizermos será para total benefício nosso. Faremos o bem apenas porque é bom fazer o bem. E só tem essa paz e essa liberdade quem não precisa mais fazer barganhas com Deus, pois crê que tudo ESTÁ CONSUMADO e passa a viver e andar no Espírito.