sábado, 13 de outubro de 2012

Cultura e Religião versus Evangelho


            Cultura e religião são como irmãs siamesas, estão sempre intimamente ligadas, pois o cerne de cada cultura é alguma forma de religião. Como a religião é um conjunto de crenças e valores, a cultura funciona de algum modo como vetor de expressão e visibilidade da religião na sociedade. Uma vez que o ser humano foi criado por Deus, as culturas ainda guardam, em parte, beleza e bondade, pois a graça de Deus ainda opera no mundo. Porém, todas as culturas – crenças, usos e costumes – foram maculadas pela Queda e estão influenciadas pelo pecado. Além disso, grande parte das culturas sofrem da influência das animalidades do caráter humano e da malignidade de variadas inspirações demoníacas.   
            No cerne de toda cultura há também um forte elemento de egocentrismo, da autoadoração do homem, a despeito de sua busca incessante pelo sagrado, pois nenhuma cultura é perfeita em verdade, bondade e beleza. Assim, pois, a influência da cultura na religião gera alguns riscos espirituais, principalmente o de se confundir tradição com revelação de Deus. Na verdade, muitas das práticas religiosas oriundas de tradições conhecidas não condizem de modo algum com o evangelho de Cristo.
            Jesus várias vezes enfrentou a ira dos religiosos de seu tempo quanto a essa questão. Numa ocasião, os líderes pressionavam os discípulos para que cumprissem a tradição dos anciãos a qualquer custo. Jesus, porém, os responsabilizou de negligenciarem e transgredirem o mandamento de Deus, quando então invalidavam as Escrituras por causa da sua tradição (Mt 15.3).
            Esse exemplo é uma clara ilustração de que nem sempre a tradição, por mais rica que seja, culturalmente falando, ou de quanta beleza estética esteja adornada, ou mesmo de quão espiritual possa parecer, sim, nem sempre ela estará de acordo com o evangelho de Jesus Cristo.
            A igreja, por ser uma comunidade histórica, tem uma rica herança cultural e teológica, à qual não deve jamais negligenciar, sob pena de correr o risco de tornar-se espiritualmente empobrecida. No entanto, exatamente por ser igreja, ou corpo de Cristo, não deve receber essa mesma tradição de um modo acrítico, mas, sobretudo, submetê-la a um rigoroso teste à luz das mesmas Sagradas Escrituras que prega, sob cuja autoridade deve viver.
            Em outras palavras, se a tradição, mesmo travestida de ricos adornos culturais, não estiver de acordo com o que diz a Palavra de Deus, deve ser questionada. Por exemplo, se a tradição coloca outra pessoa no lugar devido unicamente a Cristo, isso evidencia que ela está a ferir o princípio fundamental do evangelho, que é o Senhorio absoluto de Jesus Cristo sobre todas as coisas. Jesus disse: “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra” (Mt 20.18). Isto torna explícito que o senhorio de Cristo e a sua autoridade sobre a sua igreja, em geral, e sobre a nossa vida, em particular, deve ser total, inequívoca e intransferível.
            Quando um indivíduo se converte a Cristo, começa a fazer parte de seu corpo, que é a igreja. O significado essencial da conversão é uma completa mudança de lealdade, pois deixamos de lado os ídolos aos quais reverenciávamos e passamos a servir única e exclusivamente ao Senhor Jesus. Desse modo, a igreja não deve submissão a nenhum outro ser, como também não deve adorar a nenhum ídolo, sob nenhum pretexto, mesmo que este venha maquiado de verniz religioso ou teológico. E por quê? Porque só Jesus é digno “de receber o poder, e riqueza, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e louvor”, conforme é plenamente reconhecido no Céu (Ap 5.12).
            É bom sempre lembrar que não foi a tradição que nos deu a salvação, foi Jesus. A vida eterna foi dada por Jesus, não por anjos, ou santos, ou ídolos. Quando a tradição diz o contrário, que algum outro ser deve ser colocado no lugar de Deus; quando coloca outro mediador entre nós e Deus, então, essa mesma tradição elimina o conceito de Deus e subtrai a honra devida a Jesus, pois escrito está: “Porquanto há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem” (1 Tm 2.5). 
            Devemos, pois, estar atentos ao fato de que muitas vezes os valores culturais buscam substituir a fé pura e simples na Palavra de Deus. Essa sutileza que substitui valores espirituais por conceitos culturais é importante na proporção dos danos que causa. Se interfere no destino eterno de uma pessoa, distanciando-a de Deus aqui e para toda a eternidade, então deve ser levada em conta, reavaliada e descartada. Torna-se, portanto, necessário um novo processo de conversão, ou seja, uma mudança radical de rumo e de perspectiva.
            A religião (religare) só é boa se nos religa a Deus. A cultura só é boa se não nos afasta de Deus. Acima destas está o evangelho, que “é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê”.

sábado, 6 de outubro de 2012

Para decidir o destino da cidade


Chegou a hora de decidir o destino da sua cidade. Neste domingo, 7, as eleições municipais, em todo o Brasil, ajudarão a decidir os rumos que cada cidade seguirá nos próximos quatro anos. De algum modo, você certamente terá de pensar sobre o voto que vai dar, sobre qual candidato escolher, pois sendo uma pessoa responsável, o que você depositar nas urnas vai ajudar a dirigir sua própria vida.
Talvez você seja daqueles que se encontram frustrados com a escolha das eleições passadas, se sentindo enganado ou abandonado. Talvez seja um daqueles que nem mesmo se lembra em quem votou. Ou talvez, você seja uma das pessoas que ache eleição uma coisa chatíssima.
Quero que você pense sobre duas coisas. Primeiro, nesse exato momento, cerca de metade da população do mundo não sabe sequer o que quer dizer votar e escolher os seus próprios governantes, pois esse é um instrumento inexistente em não poucas culturas e países. Por esse prisma, podemos nos considerar privilegiados por fazer parte da escolha da vida política da nossa cidade. Isto porque, bem ou mal, vivemos em uma democracia.
Segundo, se uma pessoa começar a votar aos 16 anos e viva até aos 80 anos, poderá votar, no máximo, dezessete vezes. Quantas coisas na vida você pode fazer que lhe dê dezessete oportunidades para mudar ou melhorar algo, mas acaba desprezando?
Essas duas ponderações ajudam a nos mostrar a importância e a urgência que as eleições devem merecer de cada um de nós. Afinal, esta é a festa da democracia. Na definição de Abraham Lincoln, “Democracia é o governo do povo, pelo povo e para o povo”. Assim, o próprio povo escolhe, pelo voto, o seu destino.
A maneira como cada eleitor trata o seu voto fornece uma pista segura para sabermos se o mesmo tem consciência política e exerce plenamente o seu direito de cidadão, ou não. Desse modo, a estatura de cada cidadão é medida pela valorização que dá ao seu voto, pelo modo como expressa a sua vontade política.
Por isso, o voto é não somente intransferível e inegociável, mas também precisa refletir a compreensão que o eleitor tem de sua cidade. Em função disso, ele não deve, em hipótese alguma, violar a sua consciência política, principalmente no que diz respeito à sua maneira de ver a realidade social. Cada eleitor deve, portanto, discernir se o candidato que pede o seu voto é uma pessoa lúcida e comprometida com as causas da Justiça e da Verdade, e não um oportunista de plantão, que só aparece em época de eleição.
Se o eleitor quer ter compromissos éticos na política, deve lembrar-se de que os fins não justificam os meios. Por isso, nunca deve aceitar promessas de qualquer candidato que possam corromper a sua consciência, mesmo que a “recompensa” propalada seja, aparentemente, muito boa para si ou para a sua comunidade. O eleitor não deve aceitar de forma alguma promessas de ganhar os “reinos deste mundo” por quaisquer meios que lhe roubem a glória de ser um cidadão responsável e útil à sociedade com o seu voto.
Devemos ter em mente que o nosso voto é, de algum modo, um instrumento revolucionário e pacífico de transformação social. E essa é uma característica única e essencial de democracias sólidas e estáveis, cuja ação só pode ser realizada por um ato da vontade e da consciência de cada cidadão.
Quer queiramos admitir ou não, estaremos caminhando para uma situação que pode melhorar ou piorar a nossa cidade, dependendo da nossa atitude, da nossa escolha. Se formos omissos ou desinteressados, ajudaremos a piorar a situação; se formos responsáveis e diligentes, solidários e participativos, com o voto consciente e de qualidade, daremos um grande passo para melhor a “polis”, a cidade onde vivemos, pois daí advém o termo política.
Se não dá para mudar tudo e fazer o bem de uma só vez, podemos ao menos tentar evitar que o mal prospere, ao votarmos e elegermos os candidatos sérios e de melhores propostas.
Procure avaliar a vida dos candidatos, pergunte sobre os mesmos, se informe a respeito, veja se é um bom caráter, se é uma pessoa séria, se tem propostas coerentes, e prime por escolher o seu candidato num elenco que traga essas legítimas características.
Se estes não puderem mudar o que precisa ser mudado, na pior das hipóteses evitarão que pessoas nocivas sejam eleitas e ocupem o lugar que nos é devido, exerçam autoridade sobre nós, persigam a nossa fé e blasfemem contra o nosso Deus.
       Nesta hora de decisão, saiba que o seu voto ajudará a decidir o destino da sua cidade. Além disso, oro para que Deus dê a todos sabedoria e graça, para que cada eleitor faça a melhor escolha!

sábado, 29 de setembro de 2012

O que pode fazer Deus sorrir


O que pode fazer Deus sorrir? Vendo a feiosidade do mundo de hoje, teria Deus motivos para tal? Evocando-se também as centenas de anos de teologias que mostram um Deus irado e carrancudo, poderíamos minimamente pensar que Deus seja dado a sorrisos? E, decerto, talvez Deus tenha tantos motivos quanto na época de Noé, quando se arrependeu de ter criado o homem e pensou em destruir a raça humana que se havia irremediavelmente corrompido (Gn 5.6). 
De qualquer modo, foi nesse meio tempo que Deus descobriu, entre tanta podridão comportamental, um homem chamado Noé, que lhe dava prazer e certamente o fazia abrir um largo sorriso. Foi exatamente quando Deus decidiu começar tudo de novo com a família dele. 
A razão de estarmos vivos hoje é que Noé agradou a Deus. O modo de Noé agradar a Deus se baseava numa legítima adoração, a qual perpassava a sua vida inteira e fazia dele alguém especial e possuidor de uma vida com propósito, o que o tornava, inclusive, diferente do resto das pessoas de sua geração. Deus verdadeiramente tinha nele motivos para sorrir. Ele cria que tinha sido criado por Deus e para Deus; e foi em Deus que Noé descobriu a sua origem, identidade, significado e propósito. 
A ideia de fazer Deus sorrir pode parecer absolutamente estranha para muitas pessoas, principalmente àquelas que se acostumaram à imagem de Deus como um velhinho carrancudo e irado, com raios nas mãos para atirar no primeiro pecador que sair da linha. 
Rick Warren, em seu livro “Uma Vida com Propósitos”, ainda hoje um best-seller, aborda a intrigante questão do propósito para o qual fomos criados, trazendo como exemplos da observação da vida de Noé, os cinco atos de adoração que faziam Deus sorrir. Isso, no fim das contas, serve como contraponto de que alguém pode conseguir poder, dinheiro, sucesso e alcançar os pícaros da glória humana, mas, mesmo assim, vir a sentir o imenso e inominável vazio de ter corrido a vida toda atrás do vento.
O que, porventura, pode fazer Deus sorrir?
Deus sorri quando o amamos acima de qualquer coisa. Isso ocorreu com Noé, que amava a Deus mais do que tudo, mesmo quando ninguém mais o amava. A sua vida era pautada por seguir a Deus ininterruptamente e isso o fazia desfrutar de um íntimo relacionamento com Ele.
Deus sorri quando confiamos Nele completamente. Noé confiou em Deus mesmo quando isso não fazia nenhum sentido. Deus o mandara construir um gigantesco barco para salvar a sua família e os animais, pois iria alagar o mundo. Ora, Noé jamais vira uma chuva, pois naquela época apenas o orvalho irrigava a terra. Também não sabia o que era um barco e morava a centenas de quilômetros do oceano. Mesmo assim, Noé levou 120 anos para construir a Arca, a despeito das críticas de ser louco varrido; tudo porque confiava completamente em Deus.
Deus sorri quando o obedecemos incondicionalmente. Deus dera a Noé instruções detalhadas (tamanho, forma, matéria-prima) a respeito da construção da Arca e sobre que tipos de animais deveria recolher. A Bíblia diz que “Noé fez tudo exatamente como Deus lhe tinha ordenado”, pois ele sabia que esse era o modo certo. Obediência parcial é uma completa desobediência. A obediência a Deus é um ato de adoração, pois nela dizemos o quanto o amamos. Obedecer a Deus incondicionalmente é um tipo de devoção que o faz sorrir.
Deus sorri quando o louvamos e damos graças. Quem não gosta de receber um agradecimento? Deus também gosta. E Noé sabia disso, tanto que a sua primeira atitude após o dilúvio foi expressar a sua gratidão a Deus oferecendo-lhe um sacrifício “tomando alguns animais e aves”. Hoje, diferentemente daquele tempo, podemos oferecer a Deus sacrifícios de louvor e gratidão (Hb 13.15; Sl 116.17).
Deus sorri quando usamos nossas habilidades. Alguém pode pensar que Deus só se agrada de nós quando estamos em atividades “espirituais” — ler a Bíblia, ir ao culto, orar, testemunhar etc. — e que Ele é indiferente às outras áreas de nossa vida. Deus disse a Noé e sua família que eles deveriam ser férteis, se multiplicar, encher a terra; que eles podiam trabalhar e comer animais e vegetais. É como se Deus dissesse: “Siga a sua vida, eu vou estar por perto. Eu me importo com você”. A Bíblia diz: “Os passos dos justos são dirigidos pelo Senhor. Ele se agrada de cada detalhe da vida deles” (Sl 37.23). Assim, todas as atividades humanas, com exceção do pecado, podem ser feitas para agradar a Deus.
Sendo assim, permita-se um momento de reflexão, se você está ou não agradando a Deus, se sua vida tem sentido ou é um mero correr atrás do vento. E, finalmente, responda: será que Deus tem algum motivo para sorrir pela sua vida?

sábado, 22 de setembro de 2012

Uma diferença que faz toda a diferença


De acordo com ciência genética, há 99,4% de semelhança entre o ser humano e os chimpanzés. Ao realizar uma análise comparativa de amostras de DNA, o cientista americano Morris Goodman chegou a este resultado, demonstrando que os chimpanzés estão geneticamente mais próximos do homem do que de outros primatas. Isto esquentou o debate sobre criação e evolução no recorrente embate entre fé e ciência, levantando um novo capítulo na luta sobre a origem do ser humano.
De fato, há duas explanações básicas, mutuamente exclusivas, quanto ao surgimento do ser humano. De um lado, o criacionismo, que apresenta Deus como o Criador, cuja base está na Bíblia. Do outro, a teoria da evolução, baseada na teoria darwiniana da origem das espécies, que sustenta ter sido um mero acidente. Mas há algo em comum entre estas duas facções: é a extrema necessidade de fé para se acreditar nas possibilidades que apresentam.
A afirmação de que o homem descende do macaco é essencialmente um dogma científico. Ora, um dogma, por definição, é o ponto fundamental e indiscutível de qualquer doutrina ou sistema. A razão que faz da teoria da evolução um dogma de fé em nome da ciência é que não há, por certo, em parte alguma, qualquer evidência científica da mesma.
Para se crer na teoria da evolução é necessário, portanto, acreditar cegamente na suposição de um “elo perdido”. Mas tudo isso é apenas um dogma de fé darwinista. Como os dogmas de fé são muito difíceis se não impossíveis de refutar com argumentos científicos, muitas pessoas seguem obstinadamente crendo em coisas não só desprovidas de fundamento científico sólido, mas, além disso, em franca contradição com o conhecimento científico acumulado até hoje.
A Bíblia afirma que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança (Gn 1.26), ou seja, somos essencialmente dotados de características morais e espirituais. Ao contrário da teoria da evolução, na Palavra de Deus não existem “elos perdidos” nem tampouco desesperança. Há início, há um propósito, há um destino.
Porém, o “xis” da questão não é o grau de semelhança entre o homem e o chimpanzé, mas o percentual de diferenciação. O que interessa mesmo é descobrir sobre este 0,6% que faz tanta diferença. Pois nisso está a raiz que diferencia o ser humano dos outros animais. Além do mais, é essa diferença mínima que faz um ser humano ser o que é.
O certo é que, em função desse 0,6%, um ser humano pode pender para o bem ou para o mal; pode deslizar em ações de indizíveis baixezas ou realizar feitos de inenarrável grandeza; pode ser capaz de proferir uma deslavada mentira ou de cultuar a Deus numa genuína adoração.
Essa pequena diferença fez com que o homem criasse a roda, os meios de transporte, a comunicação oral e escrita; fez com que plantassem e colhessem, construíssem casas e estradas; fez com que desenvolvessem regras, leis, ideias, sentimentos, sistemas de valores; fez com que controlassem o poder do átomo. Tal diferença mínima deu ao homem a capacidade de acumular conhecimento e, a partir daí, gerar livros, pinturas, navios, automóveis, eletrodomésticos, vacinas, roupas, relógios, lâmpadas, computadores, satélites, naves espaciais etc.
Essa diferença de alguma forma mostra a presença de Deus na vida humana. Não só como Criador, mas também como Inspirador de todo o bem, pois “toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto, descendo do Pai das luzes” (Tg 1.17). Entre outras coisas, a dádiva que vem com essa diferença fez Beethoven escrever a Nona Sinfonia; levou Pelé a ser o mais completo atleta de todos os tempos; fez cientistas realizarem descobertas maravilhosas; levou poetas a encherem a vida de lirismo; fez Davi cantar a vida em salmos; permitiu ao homem conquistar o espaço.
É essa diferença de 0,6% que dota o ser humano de uma característica única, segundo a Bíblia, de ter sido criado para se relacionar com Deus. Nós somos seres essencialmente adoradores. Esta é a marca indelével do Criador na humanidade, da qual não se pode fugir ou omitir-se.
Em seu tatear incessante para cumprir o papel para o qual foi criado, em sua busca de se relacionar com o Divino na esfera espiritual, na maioria das vezes o homem tenta preencher o vazio de não conhecer a Deus e produz para si deuses que não são, e fabrica ídolos que lhe satisfaçam essa necessidade inerente; ou então, simplesmente tenta negar a sua origem divina.
            As Escrituras dizem que Deus quer manter relacionamento conosco e procura adoradores que o adorem “em espírito e em verdade”. Mas também afirmam o nosso dever de buscarmos o Senhor enquanto se pode achar, de invocá-lo enquanto está perto (Jo 4.23; Is 55.6). Se assim o fizermos, esse mínimo 0,6% que nos separa dos chimpanzés será a diferença que fará toda a diferença em nossa vida, aqui e na eternidade.

sábado, 15 de setembro de 2012

Complexo de Xing Ling


Na cidade chinesa de Shenzen, o gigantesco shopping Lo Wu, com cinco andares, vende especialmente imitações de mercadorias luxuosas. O New York Times fez-lhe a seguinte referência: “Lo Wu é provavelmente a capital dos produtos falsificados”. Embora seja amplamente sabido que os produtos ali vendidos são pirateados, todos os dias milhares de pessoas viajam de Hong Kong direto para Shenzen e visitam Lo Wu, onde pagam, sem piscar, uma centena de dólares por um produto genérico ou falsificado de grandes marcas, geralmente de procedência duvidosa, chamados de “xing ling”.
Quando as pessoas compram imitações de produtos, os chamados “piratas”, que custam uma fração do preço dos originais, mas de durabilidade inferior, isto é um exemplo pitoresco da tendência humana de valorizar a aparência externa para além da realidade. Pode-se pagar uma boa quantia por uma etiqueta ou um “look” correto, mesmo que a mercadoria não seja autêntica.
Essa tendência pode ser encontrada também na área espiritual. Jesus a localizou fartamente no comportamento religioso de sua época. Não poucas vezes Jesus acusou os fariseus de viverem uma realidade intrinsecamente afeita à hipocrisia. Eles praticavam boas ações, oravam e jejuavam, mas apenas para criarem uma aparência socialmente aceitável de homens santos devotados a Deus.
Os fariseus pareciam bastante autênticos, agiam como se fossem religiosos espiritualmente desenvolvidos, mas seus corações estavam completamente distantes de Deus. No famoso Sermão do Monte, Jesus traça parâmetros espirituais veementemente contrários ao estilo de vida farisaico de sua época.
Desse modo, os fariseus poderiam ser chamados de “religiosos xing ling”, numa alusão aos produtos genéricos ou falsificados de grandes marcas. Eles apenas pareciam ser espirituais, mas eram meros legalistas religiosos. Jesus denuncia que eles “atam fardos pesados e difíceis de carregar e os põem sobre os ombros dos homens; entretanto, eles mesmos nem com o dedo querem movê-los. Praticam, porém, todas as suas obras com o fim de serem vistos dos homens... Amam o primeiro lugar nos banquetes e as primeiras cadeiras nas sinagogas, as saudações nas praças e o serem chamados mestres pelos homens” (Mt 23.4-7).
 Por causa desse seu exemplo de vida, historicamente, no sentido figurado, a palavra fariseu passou a indicar o indivíduo que aparenta santidade, não a tendo; um sujeito hipócrita, fingido.
            Pensemos, portanto, nessa fraqueza humana de primar muito mais pela aparência do que pela realidade. É nesse terreno fértil que floresce o substrato da “propaganda enganosa”, qualquer que seja o campo de atividade.
Vários exemplos podem ser evocados. Um político de moral duvidosa, acusado costumeiramente de corrupção, mas cujo discurso tem o dom de inebriar os ouvintes, a ponto dos mesmos esquecerem o que realmente conta. Um pregador eloquente e bem vestido, com discurso contundente, prometendo riquezas terrenas e um lugar privilegiado no céu, mas cuja vida está completamente distante do padrão de Deus. Um comercial de cigarro que faz a ligação do ato de fumar com a virilidade, a competência, a fama, o sucesso, mas cuja realidade encoberta certamente terminará em câncer e morte.
A verdade é que, embora nos achemos pessoas esclarecidas, de algum modo podemos rapidamente ser convencidos pela forma como as pessoas se expressam, mesmo que tenhamos algumas questões a respeito do que falam.
Um homem que tentava explicar o significado da palavra oratória, fez o seguinte comentário sarcástico: “Se você diz que preto é branco, está sendo tolo. Mas, se enquanto diz que preto é branco, rugir como um leão, bater na mesa com os punhos cerrados e correr de um lado da sala para o outro, isso é oratória”.
Isso é uma forma jocosa de dizer que, em geral, as massas são movidas mais pelo estilo que pelo conteúdo. Talvez porque muitos sofram, mas não queiram saber, de um defectível “complexo de xing ling”. Buscam mais as aparências que as realidades. Contentam-se com o falso, desde que isto os permita fazer expressar o status do verdadeiro.
De acordo com o apóstolo Paulo, chegaria o tempo em que as pessoas “se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas”, quando se afastariam da verdadeira doutrina de Cristo e seriam tolerantes com aqueles que descaradamente as ludibriam para que se sintam bem (2 Tm 4.3). Devemos então analisar e avaliar cuidadosamente tudo o que ouvimos, mesmo que seja proclamado da forma mais eloquente. Não devemos nos permitir ser seduzidos pela aparência de um produto, ou por mera oratória.
Na vida espiritual, precisamos ter certeza a respeito dos que ensinam sobre a Bíblia, se estão “falando a verdade em Cristo e não mentindo”.
Viver no terreno movediço da falsidade, principalmente no âmbito espiritual, é prejuízo certo. Aparência e eloquência nunca substituem a realidade. Jesus nos instrui que a única forma aceitável de adoração a Deus é aquela feita “em espírito e em verdade”, não uma devoção “xing ling”, que apenas parece, mas não é.